Publicado em 05/11/2026 07h40

O ativo invisível que vale ouro

O Mercado de Carbono não nasceu para salvar o ESG. Nasceu porque o ESG amadureceu o suficiente para deixar de ser discurso e começar a movimentar dinheiro, competitividade, investimento e poder econômico.
Por: Kátya O. Desessards

 

O Mercado de Carbono não é apenas uma nova fronteira de negócios. É a prova concreta de que o ESG saiu do PowerPoint, vestiu macacão, pegou uma planilha e começou a movimentar dinheiro de verdade.

“Os mercados de capitais sustentáveis e transparentes são essenciais para um mundo sustentável.”     — Kofi Annan, ex-Secretário-Geral da ONU e idealizador da iniciativa que deu origem ao conceito ESG moderno no relatório Who Cares Wins (2004).

Recebi muitas indagações de leitores que se sentem confusos sobre como surgiu o ESG e o que é esse tal de Mercado de Carbono. Então, hoje, vamos ao ‘B. A. BA’... Durante anos, o ESG viveu uma estranha dualidade. Para seus defensores, era a bússola moral do capitalismo contemporâneo. Para seus críticos, era apenas mais uma sigla corporativa sofisticada criada para enfeitar relatórios anuais e apresentações de conselho.

A verdade, como quase sempre acontece, estava em algum lugar entre os dois extremos.

O problema é que conceitos, por melhores que sejam, têm dificuldade para sobreviver sozinhos. O mercado gosta de indicadores, ativos, receitas, custos, retorno sobre investimento e geração de valor. Em outras palavras, o mercado gosta de coisas que cabem numa planilha. E foi exatamente nesse momento que o Mercado de Carbono entrou em cena.

O carbono transformou aquilo que antes era apenas uma boa prática em uma variável econômica tangível. O ESG passa agora a ter preço. Passa a gerar receitas. Passa a alterar cadeias produtivas. Passa a influenciar bancos, investidores, governos e bolsas de valores. Passa, sobretudo, a mexer com o bolso de pessoas, empresas e governos.

E quando alguma pauta entra na planilha financeira, ela deixa imediatamente a categoria da boa intenção para ingressar – oficialmente - no mundo real. Por isso, entre todos os instrumentos já criados dentro do universo ESG, nenhum representa tão claramente sua materialização quanto o Mercado de Carbono. Ele é, literalmente, a monetização da sustentabilidade. Quem melhor gere e adéqua seus impactos... MAIS GANHA.

Quando a ONU chamou 48 CEOs para uma conversa que mudou o mundo

Existe uma história fundamental que poucos conhecem exatamente como aconteceu. E ela começa muito antes de o termo ESG existir. “Senta que lá vem a História!”. Em 1990, Maurice Strong, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, chamada de Rio-92, convidou o empresário suíço Stephan Schmidheiny para construir uma ponte entre o setor empresarial e as discussões globais sobre sustentabilidade.

A partir dessa missão, Schmidheiny reuniu 48 CEOs de algumas das maiores corporações do planeta, formando em 1991 o Business Council for Sustainable Development (BCSD) – ou seja: Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável . Aqui é importante fazer uma correção histórica que, frequentemente, aparece com números diferentes. Foram 48 CEOs efetivamente reunidos na iniciativa original da ONU. A confusão surge porque, posteriormente, a publicação associada ao trabalho desses executivos, passou a incorporar contribuições e conhecimentos de mais de 50 líderes empresariais multinacionais, ampliando o grupo original com colaboradores adicionais. Vamos entender...

O primeiro grande documento produzido por aquele grupo de 48 CEOs foi o trabalho que resultou no livro "Changing Course: A Global Business Perspective on Development and the Environment", publicado em abril de 1992 e apresentado durante a Rio-92 (ou Eco-92). Esse livro, se tornaria um dos textos fundadores do atual conceito de Sustentabilidade Corporativa. Ali nasceu uma ideia revolucionária para a época:

Não existe contradição inevitável entre crescimento econômico e proteção ambiental. As empresas não precisavam escolher entre lucro e sustentabilidade. Precisavam aprender a produzir lucro de forma sustentável.

Estes conceitos foram as BASES de tudo que hoje sabemos sobre direitos e deveres à Sustentabilidade. Entre as companhias citadas nas reconstruções históricas do BCSD aparecem empresas como Shell, Volkswagen, Mitsubishi, Nissan, Chevron e DuPont, cujos líderes participaram das discussões empresariais que cercaram a construção daquela agenda. Doze anos depois, em 2004, Kofi Annan – então Secretário-Geral da ONU -  convidaria grandes instituições financeiras globais para desenvolver um novo MODELO DE AVALIAÇÃO de investimentos. Nascia ali o Relatório "Who Cares Wins - Connecting Financial Markets to a Changing World" (Quem se importa, vence – Conectando os mercados financeiros a um mundo em transformação), publicado em junho de 2004 sob coordenação do Pacto Global da ONU. Foi nesse documento que apareceu formalmente a integração dos fatores Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança).

Nascia – oficialmente - o ESG.

E hoje, estamos evoluindo. Ou, seria isso que deveríamos estar fazendo!? O que o Mercado de Carbono representa hoje é – justamente - a consequência natural daquela evolução iniciada em 1991. Primeiro veio a consciência. Depois veio a governança. Agora veio a precificação. Ou seja. O dia em que a sustentabilidade encontrou a planilha financeira...  E nesta dinâmica, existe uma pergunta que todo empresário faz, mesmo quando não verbaliza: "Quanto isso vale?"

Durante décadas, a sustentabilidade teve enorme dificuldade para responder. Hoje responde. Em cifras.

Segundo o Banco Mundial, os mecanismos de precificação de carbono arrecadaram mais de US$ 104 bilhões em 2023, um recorde histórico. Existiam então 75 instrumentos de precificação de carbono em operação pelo mundo. Isso significa que o carbono deixou de ser apenas uma preocupação ambiental... E hoje em 2026?

- Virou uma commodity regulatória.

- Virou um ativo.

- Virou um mercado.

E não estou falando de algo periférico. Estou falando de um dos segmentos que mais rapidamente ganham relevância dentro da nova economia global. Ou seja, o mercado mais amplo de sustentabilidade e investimentos ESG move, atualmente, trilhões de dólares em ativos sob gestão ao redor do mundo, consolidando um ecossistema que envolve energia renovável, economia circular, infraestrutura resiliente, finanças sustentáveis, tecnologias climáticas, agricultura regenerativa, bioeconomia e, cada vez mais, mercados de carbono. Em outras palavras: A sustentabilidade é o ‘Continente’. E o Mercado de Carbono tornou-se uma das suas Capitais Econômicas. Entendeu!?

O Brasil chegou ao jogo. E chegou forte!

Em dezembro de 2024, o Brasil finalmente sancionou a Lei nº 15.042, criando o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). A lei criou oficialmente o mercado regulado brasileiro e estabeleceu as bases para a negociação de ativos relacionados à emissão, redução ou remoção de gases de efeito estufa. Traduzindo:

Quem emitir mais terá custos maiores. Quem emitir menos terá vantagens econômicas. Quem conseguir remover carbono poderá gerar ativos negociáveis.

É um mecanismo relativamente simples. Mas seus efeitos são gigantescos.

O interessante é que muitos ainda acreditam que apenas grandes poluidores terão participação nesse mercado. Nada poderia estar mais distante da realidade. Vamos aos exemplos... Uma transportadora poderá ganhar competitividade reduzindo emissões de frota. Uma indústria poderá acessar linhas de crédito mais baratas. Uma empresa de software poderá desenvolver sistemas de monitoramento climático. Uma consultoria poderá estruturar inventários de emissões. Um escritório jurídico poderá atuar na governança regulatória. Uma empresa de auditoria poderá certificar projetos. Uma startup poderá criar soluções de rastreabilidade. Ou seja: o Mercado de Carbono não criou apenas créditos. Ele criou ecossistemas econômicos inteiros.

E quem já está construindo a ponte para o Mercado de Carbono aqui no Brasil?

Uma das falácias mais comuns é acreditar que o Mercado de Carbono será um ambiente dominado apenas por grandes grupos ambientais ou empresas ligadas a florestas. Não será. Na prática, quem está se preparando melhor são justamente empresas que entenderam que carbono não é apenas uma questão ambiental. É uma questão econômica. No sistema financeiro brasileiro, por exemplo, o movimento já é bastante visível.

Os exemplos reais já existem. A Natura tornou-se referência internacional em gestão socioambiental e compensação de emissões através de suas estratégias de sustentabilidade. A Suzano ganhou protagonismo global ao demonstrar o potencial das florestas plantadas na captura e estocagem de carbono. Grandes instituições financeiras como Itaú, Banco do Brasil, e outras organizações do sistema financeiro vêm estruturando produtos, financiamentos e mecanismos relacionados à transição climática. No próprio relatório "Who Cares Wins", publicado em 2004, o Banco do Brasil aparece entre as instituições que apoiaram a construção da agenda ESG global.

O Bradesco assumiu compromisso público de descarbonizar suas carteiras de crédito e investimentos até 2050, aderindo à Net-Zero Banking Alliance da ONU. A instituição também passou a mensurar as emissões associadas aos financiamentos concedidos e vem estruturando mecanismos de apoio à transição de seus clientes para uma economia de baixo carbono. Também o Itaú, o Santander Brasil e o BNDES vêm ampliando linhas associadas à agenda ESG, financiamentos vinculados a metas de sustentabilidade e estruturas voltadas à economia verde, movimento que naturalmente converge para o crescimento do Mercado de Carbono.

No cooperativismo financeiro, um dos exemplos mais interessantes vem do Sicredi. A instituição desenvolveu iniciativas voltadas à certificação Carbono Neutro para produtores rurais, incluindo inventários de emissões, consultoria técnica especializada e mecanismos de certificação ambiental para produtores de café. O programa demonstra como o cooperativismo pode democratizar o acesso dos pequenos e médios produtores ao universo da economia de baixo carbono.

Esse talvez seja um dos aspectos mais promissores do Mercado de Carbono brasileiro. Ele não beneficia apenas os gigantes. Quando bem estruturado, pode incluir desde grandes conglomerados industriais até pequenos produtores rurais organizados em cooperativas.

Na indústria, os exemplos também se multiplicam. A Suzano já possui iniciativas estruturadas para geração de créditos de carbono a partir da captura de carbono em suas florestas plantadas, conservação de vegetação nativa e restauração de áreas degradadas. A companhia reconhece publicamente que suas florestas podem atender aos requisitos para geração de créditos negociáveis tanto no mercado voluntário quanto, futuramente, no ambiente regulado brasileiro. A Klabin, embora com modelo distinto, também desenvolve iniciativas ligadas à gestão florestal certificada, conservação ambiental e captura biológica de carbono. Já indústrias como Gerdau, Votorantim, CSN e Usiminas vêm anunciando metas de redução de emissões e investimentos em processos produtivos mais eficientes, antecipando uma realidade que será cada vez mais exigida por investidores internacionais e mercados consumidores.

No agronegócio, companhias como Amaggi, JBS, Marfrig e BRF também investem em rastreabilidade, monitoramento ambiental e redução de emissões em suas cadeias produtivas, fatores que tendem a ganhar relevância crescente em um ambiente regulado de carbono. E é no Agro, também, que tem empresa de porte médio dando show dentre os gigantes. É a Sementes Com Vigor (SCV), uma sementeira de Muitos Capões, da Região dos Campos de Cima da Serra, do Rio Grande do Sul, que é referência nacional a - 50 anos - em Agricultura Regenerativa no modelo Plantio Direto e com integração lavoura-pecuária. Ou seja, quem quer, faz e ensina.

O que une todos esses exemplos é um detalhe fundamental: Nenhuma dessas empresas está investindo em sustentabilidade apenas para melhorar sua imagem. Não é sobre isso!

Estão investindo porque compreenderam que sustentabilidade é mais do que modismo, é sobrevivência de todos. E mesmo aquelas empresas que ainda não se identificam (ou não se percebem) como seguindo a Matriz ESG, como a gaúcha SCV; ainda assim, seus pares, parceiros e clientes enxergam, nitidamente, a vocação natural e o comprometimento com o maior tesouro: o SOLO. E isso é ESG puro!

O carbono está se transformando em um fator de competitividade. Em outras palavras, a sustentabilidade continua sendo uma questão ética. Mas o Mercado de Carbono transformou essa ética em estratégia. E estratégia, no mundo corporativo, é aquilo que separa quem lidera de quem apenas reage.

A parte bonita da história. E a parte difícil também.

Aqui convém um banho de realidade. Existe atualmente uma romantização excessiva do Mercado de Carbono. Como se bastasse plantar meia dúzia de árvores, fazer algumas fotos com drones, contratar uma consultoria e esperar uma chuva de dinheiro sustentável. Não funciona assim. Projetos sérios exigem:

- Inventário de emissões.

- Monitoramento.

- Auditoria.

- Rastreabilidade.

- Governança.

- Conformidade regulatória.

- Validação independente.

- Medições contínuas.

- Documentação técnica.

Ou seja: trabalho. Muito trabalho. E talvez este seja um dos aspectos mais positivos do próprio mercado. Ele dificulta a entrada de aventureiros. Quanto mais rigor existir, mais valiosos serão os créditos gerados. Quanto mais sólida for a governança, maior será a confiança dos investidores. Quanto maior a confiança, maior será o valor econômico do mercado.

Um cenário possível para a América Latina

Agora vamos imaginar um cenário perfeitamente plausível para os próximos dez anos. Uma empresa brasileira de alimentos exporta para o Chile. Suas embalagens vêm da Colômbia. Parte da energia utilizada é contratada na Argentina. Sua logística envolve operadores do Paraguai e do Uruguai. Todos operam em sistemas compatíveis de contabilização de emissões. Todos seguem metodologias verificáveis. Todos participam de mercados climáticos interoperáveis.

O resultado? Mais comércio. Menos barreiras. Mais competitividade. Mais investimento. Mais integração regional.

A América Latina reúne características que poucos blocos econômicos possuem simultaneamente:

- Abundância hídrica.

- Biodiversidade.

- Potência agrícola.

- Matriz energética relativamente limpa.

- Capacidade florestal.

- Reservas minerais estratégicas.

Se houver harmonização regulatória, o Mercado de Carbono poderá funcionar como um acelerador de competitividade para todo o continente. Não apenas para vender créditos. Mas para vender produtos de maior valor agregado.

O tamanho da oportunidade brasileira

Agora a pergunta que realmente importa. Quanto o Brasil pode capturar dessa transformação? A resposta exata ninguém possui. Mas existem indicativos extremamente favoráveis. O país abriga uma das maiores extensões de florestas do planeta. Possui uma matriz elétrica consideravelmente mais limpa que a média mundial.

É uma potência agroindustrial. Tem liderança em biocombustíveis. E possui enorme capacidade de geração de projetos ambientais escaláveis. Além disso, especialistas do setor consideram o Brasil um dos países com maior potencial para oferta de ativos ambientais e créditos de carbono de alta integridade nas próximas décadas.

No campo do emprego, a economia verde já deixou de ser discurso. Dados citados a partir de referências da OIT e da IRENA apontam aproximadamente 1 milhão de empregos verdes formais no Brasil, além de cerca de 1,56 milhão de postos de trabalho em energias renováveis, colocando o país entre os maiores empregadores globais desse segmento. Estudos também projetam milhões de novos postos ligados à transição ecológica até 2030.

Minha leitura é simples.

Se o Brasil conseguir combinar floresta, tecnologia, governança, segurança jurídica e credibilidade internacional, poderá ocupar uma posição de liderança global no Mercado de Carbono. Mas existe uma condição. Precisamos exportar confiança com a mesma eficiência com que exportamos commodities.

Sem credibilidade não existe mercado. Sem governança não existe credibilidade. E sem ESG não existe governança climática. É exatamente por isso que o Mercado de Carbono não é um capítulo separado da agenda ESG. Ele é sua evolução natural. Sua expressão econômica. Sua prova material. Sua versão que aparece no balanço patrimonial. Porque o ESG ensina as empresas a medir riscos.

E o Mercado de Carbono ensina o mercado a precificá-los...

“O progresso rumo ao desenvolvimento sustentável exige que o crescimento econômico e a excelência ambiental caminhem juntos.”    — Stephan Schmidheiny, líder do grupo de CEOs que apoiou a construção da agenda empresarial global de sustentabilidade na preparação da Rio-92

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Kátya O. Desessards | Conselheira e Mentora em ESG e Comunicação Estratégica.

Sócia no Institute On Life (especializado em Inovação e gamificação).

E integra o casting da Vant Group Consulting, criadores da plataforma Vantwork

Coautora no livro: Gestão! Como Evoluir em uma Nova Realidade?

Experiência de 28 anos em diversos setores do mercado como: varejo, imprensa, infraestrutura, gestão pública,  entidades de classe, cooperativismo, etc.

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 Dúvidas & Sugestões sobre ESG:  katya.desessards@instituteon.life