Recuperação do trigo global eleva importações do Brasil para 7,1 mi t
Publicado em 19/10/2026 10h25

Recuperação do trigo global eleva importações do Brasil para 7,1 mi t

A recuperação do trigo na Europa eleva a oferta global e pressiona cotações no Sul do Brasil, estimulando importações recordes no país.
Por: Wisley Torales

A normalização do clima e o aumento da produtividade nas lavouras de trigo da União Europeia alteram o equilíbrio da oferta global do cereal e geram reflexos diretos no mercado agrícola do Sul do Brasil. Com a recuperação das colheitas em importantes países produtores como França e Alemanha, as cotações internacionais negociadas nas bolsas de Euronext e Chicago sofrem retração, rebaixando o teto dos preços praticados na América do Sul.

No cenário nacional, os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a produção brasileira de trigo recuou para cerca de 5,7 milhões de toneladas na safra corrente, registrando uma queda de 27,2% em comparação ao ciclo anterior. O encolhimento da área semeada e as adversidades climáticas enfrentadas no Paraná e no Rio Grande do Sul reduziram a oferta interna, elevando a necessidade de compras externas a um patamar histórico.

As projeções oficiais apontam que o Brasil deve importar 7,1 milhões de toneladas do cereal para suprir o consumo dos moinhos. Esse volume de compras no exterior é estimulado pela paridade de importação favorável, que torna o trigo vindo do continente europeu e da região do Mar Negro competitivo nos portos do Nordeste e do Sudeste do país.

Pressão nos portos: A paridade favorável ao grão importado reduz a atratividade do trigo gaúcho e paranaense nos moinhos do Sudeste.

Paridade de importação e custos no campo

A abundância de grão no mercado europeu afeta diretamente os preços pagos ao produtor rural no Paraná e no Rio Grande do Sul. Quando o custo do cereal desembarcado em portos como Santos e Paranaguá se mantém inferior ao custo do frete rodoviário vindo do interior sulista, as indústrias moageiras dão preferência aos lotes importados, que oferecem padronização e constância de entrega.

Para o triticultor do Sul, essa dinâmica representa um desafio financeiro substancial. Os custos com fertilizantes, sementes e defensivos agrícolas mantêm-se em patamares elevados, enquanto os preços recebidos pela saca do cereal permanecem pressionados pela concorrência internacional. O estreitamento das margens operacionais desestimula novos investimentos na cultura de inverno.

Muitos agricultores optam por redirecionar parte dos talhões para culturas alternativas de cobertura, aveia ou cevada, buscando mitigar os riscos de prejuízo no período entre safras de grãos de verão.

Ajuste de área: A concorrência com o grão importado leva triticultores do Sul a reduzirem a superfície cultivada nas lavouras de inverno.

Desafios logísticos e opções do triticultor

O custo do transporte interno atua como um divisor de águas na comercialização do trigo brasileiro. Transportar o cereal por rodovia a partir das regiões produtoras de Passo Fundo ou Cascavel até os grandes centros consumidores do Sudeste e Nordeste custa frequentemente mais do que o frete marítimo internacional a partir de portos europeus.

A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) aponta que a padronização reológica e a previsibilidade no fornecimento continuam sendo determinantes na escolha dos moinhos. Diante desse quadro, lideranças do setor recomendam aos produtores sulistas a segregação de grãos por qualidade e a busca por contratos de fornecimento prévio para garantir a liquidez da colheita.

O mercado de trigo no Brasil segue acompanhando a oscilação do câmbio e as políticas de exportação adotadas pelos blocos europeus para definir a estratégia de comercialização das próximas etapas.