
Foto: Alfredo Nascimento Jr.
A busca por matérias-primas agropecuárias com alta rusticidade no campo e desempenho funcional na indústria alimentícia ganhou um marco na safra de 2026. Avaliações de qualidade industrial conduzidas pela Vilma Alimentos em parceria com a Embrapa Trigo confirmaram a viabilidade técnica da farinha de triticale para o consumo humano, abrindo caminho para a consolidação desse cereal no Cerrado.
Os testes analisaram a aplicação do derivado em 11 categorias de alimentos processados. Os resultados mostraram que o triticale pode compor seis dessas formulações, permitindo a substituição integral da farinha de trigo em dois tipos de biscoitos sem provocar perdas de textura, cor ou sabor em relação ao padrão tradicional.
A troca parcial da farinha de trigo por triticale mostrou-se eficiente na fabricação de biscoitos de maisena com até 30% de mescla, além de bolos, massas para pizzas e biscoitos wafers. No segmento de panificação comercial, a mistura indicada atingiu a proporção de 50% para pães de baixo crescimento.
Substituição na indústria: O triticale substitui 100% a farinha de trigo em biscoitos moldados e atinge 50% de inclusão em massas de pizza e pães.
A utilização do triticale pela indústria alimentícia traz vantagens operacionais para a formulação de alimentos funcionais. A pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, aponta que o cereal garante a crocância e a firmeza em biscoitos, eliminando a necessidade de aditivos químicos sintéticos empregados para atingir essas características.
A farinha obtida a partir das lavouras do Cerrado Mineiro apresenta coloração ligeiramente mais escura e menor força de glúten na comparação com o trigo tradicional. Essas propriedades direcionam o grão para biscoitos, cereais matinais, produtos dietéticos e misturas para bolos.
As análises desdobram os ensaios iniciados em 2024, quando um lote piloto de 20 toneladas da cultivar BRS Saturno foi enviado do Rio Grande do Sul para processamento em Minas Gerais.
Alimento funcional: O uso do triticale na fabricação de biscoitos garante crocância natural e elimina a inclusão de aditivos sintéticos na receita.
No campo, a adaptação do cereal de inverno ao bioma Cerrado superou as projeções da pesquisa agrícola. Em parcelas experimentais na Fazenda Lagoa, em Carandaí, na Zona da Mata mineira, oito cultivares de triticale foram semeadas sob irrigação em maio e colhidas em setembro de 2026.
Enquanto a produtividade média do triticale irrigado no Cerrado oscila entre três e quatro toneladas por hectare, os campos de demonstração ultrapassaram a marca de seis toneladas por hectare. O engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm destaca a sanidade foliar e a formação das espigas na área experimental.
Entre as cultivares avaliadas figuram as sementes BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite, desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Fundação Meridional, além dos materiais IPR Aimoré e IPR Goitacá, do IDR-Paraná.
O triticale é um híbrido gerado pelo cruzamento do trigo com o centeio, reunindo a qualidade de panificação do primeiro com a rusticidade do segundo. As primeiras cultivares chegaram ao Brasil na década de 1980 por intermédio da Embrapa Trigo, a partir de genótipos do Cimmyt.
Atualmente, o Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) contabiliza 24 materiais cadastrados para plantio no país. A cultura é utilizada no Sul do Brasil para alimentação animal como forragem e ração.
O pesquisador Osmar Conte, da Embrapa Trigo, explica que o sistema radicular profundo do triticale confere tolerância a secas e desenvolvimento em solos ácidos e arenosos, posicionando o cereal como opção para rotação de culturas de sequeiro no Brasil Central.