
A consolidação de tecnologias reprodutivas aplicadas à conservação de espécies ameaçadas marcou o encerramento do 3º Simpósio Internacional sobre Biotecnologias Reprodutivas para a Conservação da Vida Selvagem (Reprocon). Sediado na Casa Rural, em Campo Grande, o encontro reuniu pesquisadores, estudantes, gestores de zoológicos e profissionais de estados brasileiros e de países como Canadá, Estados Unidos, Austrália, Colômbia, Peru, Chile e Panamá. O crescimento do público exigiu a migração do evento para a sede da Famasul, aproximando a produção científica do setor agropecuário.
O Instituto Reprocon nasceu da iniciativa de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), como a professora Dra. Thyara de Deco-Souza, o professor G. D. Enson e a pesquisadora Maitê, em parceria com cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Butantan. A idealizadora explica que a entidade direciona seus estudos ao desenvolvimento de métodos de reprodução assistida e biobancos em animais silvestres, tendo a onça-pintada como espécie bandeira, além de trabalhos com capivaras e mamíferos neotropicais.
Alcance internacional: O simpósio recebeu delegações da América do Norte, Oceania e América Latina para debater protocolos de conservação e biobancos em Campo Grande.
Em entrevista detalhada, a Dra. Thyara de Deco-Souza esclareceu a conexão entre a pesquisa aplicada na pecuária e a medicina de animais silvestres. Segundo a especialista, o conhecimento acumulado na bovinocultura serve como base para o avanço dos protocolos de conservação. As ferramentas utilizadas no campo para multiplicar rebanhos de alto valor genético são adaptadas e testadas em espécies nativas que apresentam populações reduzidas no meio ambiente.
A pesquisadora pontua que a raridade das espécies selvagens dificulta a realização de ensaios experimentais diretos. Por essa razão, a ciência utiliza as metodologias consolidadas no setor produtivo como ponto de partida para ajustes pontuais de dose e manejo. As mesmas estruturas físicas empregadas na pecuária, a exemplo dos botijões de nitrogênio líquido para congelamento de sêmen e embriões, desempenham papel idêntico na conservação do material genético de grandes felinos, primatas e aves.
Entre as inovações apresentadas pelo grupo de pesquisa da UFMS, destaca-se o trabalho de resgate genético de indivíduos que morrem por atropelamento nas rodovias sul-mato-grossenses. Em parceria com a Polícia Militar Ambiental (PMA), os cientistas recolhem amostras biológicas de espécimes atingidos na pista para a extração e o congelamento de tecidos.
A Dra. Thyara explica que a equipe realiza a vitrificação de cartilagem extraída da orelha dos animais recolhidos nas estradas. Esse material permanece armazenado nos botijões para posterior cultivo celular em laboratório. A técnica preserva a linhagem de DNA do indivíduo vitimado, permitindo que a genética perdida no acidente seja resgatada no futuro por meio de processos de clonagem e fertilização assistida.
Preservação de DNA: Fragmentos de orelha recolhidos de animais vitimados em rodovias passam por vitrificação para garantir o cultivo celular e a clonagem futura.

A realização do evento na Casa Rural reflete a evolução na percepção dos produtores rurais frente às pautas ambientais. A integração entre a academia e as entidades representativas do agronegócio evidencia que a busca por rentabilidade produtiva caminha junto com a preservação dos ecossistemas e o manejo adequado da fauna nativa.
Para o presidente da Famasul, Marcelo Bertoni, receber o Simpósio Internacional REPROCON na Casa Rural reforça que ciência, produção e conservação ambiental devem caminhar juntas. “A Famasul é a casa do produtor rural e abrir as portas para um evento dessa relevância também demonstra o compromisso do nosso setor com a conservação ambiental e a proteção da vida selvagem. Quem produz conhece de perto a importância do equilíbrio dos recursos naturais e sabe que desenvolvimento e preservação precisam estar integrados. É uma satisfação apoiar uma iniciativa que reúne conhecimento, pesquisa e novas tecnologias em favor da biodiversidade”, destaca.
A convergência entre a ciência universitária e o setor produtivo garante o aperfeiçoamento constante das técnicas de manejo, assegurando a proteção da biodiversidade para as próximas gerações.