
Edivaldo Domingues Velini - Pesquisador e professor da Unesp Botucatu
A consolidação da agricultura tropical de alta produtividade exige a substituição de velhos dogmas por evidências científicas e dados consolidados. Durante coletiva de imprensa promovida pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), o presidente da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas (SBCPD) e professor da Unesp, Edivaldo Domingos Velini, apresentou levantamentos que redefinem o entendimento sobre a aplicação de defensivos agrícolas no Brasil.
A evolução dos marcos regulatórios globais e nacionais orienta-se pela transição da análise de perigo isolado para a avaliação de risco em condições práticas de campo. Enquanto o perigo representa uma propriedade intrínseca da substância, o risco mensura a probabilidade real de dano quando o produto é utilizado seguindo as recomendações agronômicas, equipamentos de proteção e dosagens registradas.
O alinhamento da legislação brasileira aos padrões internacionais atende aos avanços da biotecnologia, da agricultura de precisão e do monitoramento digital. A adoção de métricas científicas permite mensurar a segurança operacional para aplicadores, consumidores e ecossistemas sem comprometer a eficiência das safras.
Avaliação de risco em campo: A análise de risco considera as condições reais de uso, conectando a dosagem recomendada, a tecnologia de aplicação e a segurança do trabalhador rural.
Os modelos de simulação ambiental desenvolvidos em países de clima temperado mostram limitações quando aplicados às lavouras tropicais. A incidência de radiação ultravioleta nas regiões agrícolas brasileiras atinge níveis até seis vezes superiores aos observados na Europa, transformando a luz solar em um fotorreator natural de alta eficiência na degradação de moléculas.
A exposição contínua à radiação acelera a quebra química dos compostos no solo e na palhada, reduzindo a meia-vida dos defensivos no ambiente. Essa característica tropical otimiza o processo natural de descontaminação do ecossistema, tornando inadequada a cópia direta de parâmetros regulatórios europeus sem a devida tropicalização das premissas.
A presença constante de cobertura morta em sistemas de plantio direto atua como um compartimento de retenção e degradação microbiológica. A palha preserva a umidade do solo, equivale a cerca de 200 milímetros de irrigação anual e cria um ambiente favorável para a quebra biológica de eventuais resíduos.
Fotorreator natural: A luz solar nas regiões tropicais degrada produtos químicos com velocidade até seis vezes superior à registrada em ecossistemas de clima temperado.
O aperfeiçoamento da síntese de moléculas e o desenvolvimento de formulações específicas reduziram o volume de ingrediente ativo necessário para o controle de pragas, doenças e plantas daninhas. A dosagem média das moléculas modernas representa cerca de 9% do volume utilizado pelos defensivos desenvolvidos antes da década de 1970, demonstrando o salto de eficiência biológica dos novos insumos.
A mensuração desse impacto realiza-se por meio do Coeficiente de Impacto Ambiental (EIQ, na sigla em inglês), indicador internacional atualizado que avalia separadamente os riscos ao trabalhador, ao consumidor e ao meio ambiente. O monitoramento contínuo das aplicações no Brasil indica uma redução de mais de 36% no impacto ambiental e de 51% na exposição do trabalhador desde 2002.
Redução de dosagem: As novas moléculas sintéticas exigem apenas 9% da quantidade de produto ativo que era aplicada pelas formulações anteriores a 1970.
A contabilização correta do consumo exige considerar a intensidade de uso da terra no Brasil, onde o sistema de integração e o cultivo de até três safras anuais na mesma área multiplicam a produção por hectare. A divisão do volume total de defensivos pela produção em toneladas confirma que o índice de utilização brasileiro permanece abaixo da média dos países desenvolvidos.
A introdução de moléculas de última geração que aguardam registro nos órgãos reguladores tende a acelerar a redução dos índices EIQ nas lavouras do país ao longo dos próximos anos.