
O balanço das exportações do agronegócio brasileiro encerrou 2025 com a marca histórica de US$ 169,2 bilhões faturados no mercado internacional, conforme os relatórios do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Ao esmiuçar os embarques, o setor se depara com uma assimetria profunda entre os dois principais parceiros comerciais do país, exigindo estratégias distintas dos produtores nacionais.
A China consolidou sua posição como o maior comprador do campo brasileiro, injetando US$ 55,3 bilhões, montante que corresponde a 32,7% de toda a receita obtida pelo setor no exterior. Já os Estados Unidos ocuparam a terceira colocação no ranking de destinos, respondendo pela aquisição de US$ 11,4 bilhões, o equivalente a 6,7% do bolo total exportado.
Disparidade comercial: O faturamento obtido com os embarques destinados ao mercado chinês superou em aproximadamente 4,85 vezes o valor gerado pelas vendas para os Estados Unidos, evidenciando uma forte concentração de divisas na Ásia.
Essa disparidade mostra que as mudanças na demanda de Pequim possuem capacidade de ditar o ritmo dos portos e influenciar a renda de diversas cadeias brasileiras. O perfil das compras efetuadas pela China concentra-se intensamente no fornecimento de grandes volumes de commodities, como o grão de soja, a carne bovina in natura, a celulose, o açúcar bruto e o algodão.
A soja em grão opera como o motor dessa relação, gerando faturamento de US$ 34,51 bilhões, ou 62,4% de tudo o que o agro arrecadou com o mercado chinês. Em volume, as tradings movimentaram 85,4 milhões de toneladas da oleaginosa para os portos asiáticos, absorvendo quase 80% de toda a soja exportada pelo país.
No segmento de proteína animal, a China respondeu por 53,2% do valor exportado da carne bovina in natura, gerando US$ 8,84 bilhões. A pauta inclui ainda o setor florestal, com US$ 5 bilhões em celulose, o complexo sucroenergético, com US$ 1,89 bilhão em açúcar bruto, e os embarques de algodão, que somaram US$ 828 milhões.
Concentração e riscos: Embora a escala asiática garanta liquidez ao produtor, o modelo eleva a exposição da receita nacional a sobressaltos de ordem regulatória, barreiras sanitárias ou alterações diplomáticas dentro de um único mercado.
As exportações para os Estados Unidos focam em nichos da agroindústria que demandam elevada rastreabilidade. O café verde lidera os envios para os portos norte-americanos, gerando faturamento de US$ 1,91 bilhão no fechamento de 2025, seguido pela celulose, que respondeu por US$ 1,32 bilhão.
O acesso ao exigente consumidor americano funciona como um indutor de qualidade, impulsionando empresas brasileiras a desenvolverem produtos de maior valor agregado. A dinâmica com os Estados Unidos se diferencia da relação chinesa pelo fato de a maior economia do Ocidente atuar não apenas como cliente, mas principalmente como um concorrente direto do Brasil.
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) identifica disputa por mercados em frentes da produção global. Os dois países competem em soja, óleo de soja, celulose, carne de frango, algodão, fumo, carne suína e couros, fazendo com que as variações da safra norte-americana mudem as expectativas internacionais.
Na soja e no milho, os Estados Unidos possuem forte presença nas bolsas de futuros e nos relatórios que guiam tradings e indústrias, influenciando os preços recebidos nas cooperativas. As negociações comerciais e as barreiras tarifárias entre Pequim e Washington também alteram o espaço ocupado pelo Brasil, abrindo janelas de liquidez quando existem restrições.
O efeito dessas interações depende do tamanho das safras, dos preços, do frete, do câmbio e dos estoques. Dados do Ipea indicam que o crescimento econômico da China transformou a pauta exportadora desde os anos 2000, fazendo o país asiático representar cerca de um terço das receitas externas do agronegócio nacional.
Os indicadores disponíveis em 2026 mantêm o mercado chinês na liderança isolada das aquisições do setor, consolidando uma relação estrutural de longo prazo. A diversificação de produtos e destinos permanece como o principal mecanismo para mitigar os impactos de tarifas ou crises econômicas globais sobre a renda líquida obtida pelo produtor rural.