O setor de biocombustíveis do Brasil enfrenta um cenário de forte fricção comercial com o seu principal mercado na América do Norte. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu, em 1º de junho de 2026, uma ampla investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O relatório recomenda a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre o biocombustível de matriz brasileira, substituindo a barreira temporária de 10% que expira no final de julho.
O documento do USTR apresenta duras críticas ao ambiente de negócios do Brasil, extrapolando a área agrícola e citando insatisfações com plataformas digitais, o sistema Pix, leis antipirataria e o desmatamento. No âmbito técnico do biocombustível, Washington considera "irrazoável" o fim da política de reciprocidade tarifária em 2017, argumentando que o etanol de milho americano passou a sofrer restrições para entrar no Brasil, enquanto o etanol de cana brasileiro manteve trâmite preferencial nos portos dos EUA.
CRONOGRAMA DA DECISÃO EM WASHINGTON
Até 1º de julho: Período de manifestações em consulta pública.
6 de julho: Realização de audiência oficial em Washington.
Até 15 de julho: Divulgação da decisão final sobre a aplicação dos 25%.
Embora o anúncio traga ruído político e comercial, os analistas de inteligência de mercado ponderam que a dependência brasileira do mercado dos Estados Unidos vem registrando retração estrutural nos últimos ciclos. O aumento expressivo da capacidade de refino das usinas americanas de milho reduziu a necessidade de importação do produto importado.
A participação da maior economia do mundo nas exportações totais de etanol do Brasil despencou nas últimas temporadas. O volume enviado a portos americanos encolheu de forma nítida, forçando o setor produtivo nacional a descentralizar sua carteira de clientes globais.
| Indicador de Mercado | Ano de 2017 | Ano de 2019 | Ano de 2025 | Ciclo Atual (2026) |
| Volume para os EUA (Litros) | Dado não listado | 957 milhões | 202 milhões | Tendência de queda |
| Participação no Total Exportado | 69% | 62% | 16% | Abaixo de 16% |
| Status da Tarifa de Entrada | Reciprocidade | Preferencial | 10% (Temporária) | 25% (Proposta) |
Paralelamente ao debate alfandegário, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou o projeto H.R. 1346, que autoriza a venda permanente de gasolina com 15% de etanol (E15) durante todo o ano, eliminando travas ambientais sazonais. Se a medida for chancelada pelo Senado americano, o consumo doméstico dos EUA absorverá grande parte da produção local de milho.
De acordo com as projeções da StoneX elaboradas pela especialista Letícia Corrêa, o potencial exportável dos Estados Unidos poderá sofrer uma contração de 76,7% até 2027 para suprir a nova mistura interna. Esse esvaziamento dos excedentes americanos abrirá janelas estratégicas para o Brasil ocupar mercados consolidados de alta demanda, como a União Europeia e a Índia, neutralizando parte do prejuízo com as taxas de Washington.
"A combinação de oferta elevada e preços domésticos em queda reforça a importância das exportações para o setor. Nesse contexto, a disputa comercial com os Estados Unidos ocorre justamente quando o mercado global pode oferecer novas oportunidades para o produto brasileiro." — Letícia Corrêa, analista de inteligência de mercado da StoneX.
A necessidade de abrir novos canais de escoamento internacional torna-se urgente diante do ritmo acelerado das moendas no Centro-Sul. Dados coletados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) mostram que, apenas no acumulado até o fim de abril, a moagem atingiu 60,5 milhões de toneladas. A produção inicial de etanol saltou para 3,29 milhões de metros cúbicos, um avanço expressivo de 71,8% frente ao mesmo período do ciclo anterior.
Para o fechamento de todo o ciclo produtivo da safra 2026/27, a expectativa é de recorde histórico. O etanol de cana-de-açúcar deve atingir 26,9 milhões de metros cúbicos (+9,6%), enquanto o etanol processado a partir do milho deve saltar para 11,1 milhões de metros cúbicos (+12,6%). Com os tanques cheios e as cotações em queda nas bombas domésticas, o sucesso das usinas dependerá diretamente da agressividade comercial das tradings em contornar as taxas americanas e consolidar rotas nos países asiáticos e europeus.