Tarifa americana e projeto E15 mudam o tabuleiro global do etanol em 2026
Publicado em 12/06/2026 11h44

Tarifa americana e projeto E15 mudam o tabuleiro global do etanol em 2026

A consultoria StoneX alertou que a proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre o etanol brasileiro gera forte incerteza no setor sucroenergético, ocorrendo em meio ao avanço da mistura E15 no mercado americano e a uma produção nacional recorde na safra 2026/27.
Por: Leonardo Gottems

O setor de biocombustíveis do Brasil enfrenta um cenário de forte fricção comercial com o seu principal mercado na América do Norte. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu, em 1º de junho de 2026, uma ampla investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O relatório recomenda a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre o biocombustível de matriz brasileira, substituindo a barreira temporária de 10% que expira no final de julho.

O documento do USTR apresenta duras críticas ao ambiente de negócios do Brasil, extrapolando a área agrícola e citando insatisfações com plataformas digitais, o sistema Pix, leis antipirataria e o desmatamento. No âmbito técnico do biocombustível, Washington considera "irrazoável" o fim da política de reciprocidade tarifária em 2017, argumentando que o etanol de milho americano passou a sofrer restrições para entrar no Brasil, enquanto o etanol de cana brasileiro manteve trâmite preferencial nos portos dos EUA.

CRONOGRAMA DA DECISÃO EM WASHINGTON

  • Até 1º de julho: Período de manifestações em consulta pública.

  • 6 de julho: Realização de audiência oficial em Washington.

  • Até 15 de julho: Divulgação da decisão final sobre a aplicação dos 25%.

O encolhimento histórico do canal norte-americano

Embora o anúncio traga ruído político e comercial, os analistas de inteligência de mercado ponderam que a dependência brasileira do mercado dos Estados Unidos vem registrando retração estrutural nos últimos ciclos. O aumento expressivo da capacidade de refino das usinas americanas de milho reduziu a necessidade de importação do produto importado.

A participação da maior economia do mundo nas exportações totais de etanol do Brasil despencou nas últimas temporadas. O volume enviado a portos americanos encolheu de forma nítida, forçando o setor produtivo nacional a descentralizar sua carteira de clientes globais.

Evolução da participação dos EUA nas exportações de etanol do Brasil

Indicador de Mercado Ano de 2017 Ano de 2019 Ano de 2025 Ciclo Atual (2026)
Volume para os EUA (Litros) Dado não listado 957 milhões 202 milhões Tendência de queda
Participação no Total Exportado 69% 62% 16% Abaixo de 16%
Status da Tarifa de Entrada Reciprocidade Preferencial 10% (Temporária) 25% (Proposta)

O fator E15 e as novas rotas de escoamento

Paralelamente ao debate alfandegário, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou o projeto H.R. 1346, que autoriza a venda permanente de gasolina com 15% de etanol (E15) durante todo o ano, eliminando travas ambientais sazonais. Se a medida for chancelada pelo Senado americano, o consumo doméstico dos EUA absorverá grande parte da produção local de milho.

De acordo com as projeções da StoneX elaboradas pela especialista Letícia Corrêa, o potencial exportável dos Estados Unidos poderá sofrer uma contração de 76,7% até 2027 para suprir a nova mistura interna. Esse esvaziamento dos excedentes americanos abrirá janelas estratégicas para o Brasil ocupar mercados consolidados de alta demanda, como a União Europeia e a Índia, neutralizando parte do prejuízo com as taxas de Washington.

"A combinação de oferta elevada e preços domésticos em queda reforça a importância das exportações para o setor. Nesse contexto, a disputa comercial com os Estados Unidos ocorre justamente quando o mercado global pode oferecer novas oportunidades para o produto brasileiro." — Letícia Corrêa, analista de inteligência de mercado da StoneX.

Safra recorde 2026/27 pressiona preços internos

A necessidade de abrir novos canais de escoamento internacional torna-se urgente diante do ritmo acelerado das moendas no Centro-Sul. Dados coletados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) mostram que, apenas no acumulado até o fim de abril, a moagem atingiu 60,5 milhões de toneladas. A produção inicial de etanol saltou para 3,29 milhões de metros cúbicos, um avanço expressivo de 71,8% frente ao mesmo período do ciclo anterior.

Para o fechamento de todo o ciclo produtivo da safra 2026/27, a expectativa é de recorde histórico. O etanol de cana-de-açúcar deve atingir 26,9 milhões de metros cúbicos (+9,6%), enquanto o etanol processado a partir do milho deve saltar para 11,1 milhões de metros cúbicos (+12,6%). Com os tanques cheios e as cotações em queda nas bombas domésticas, o sucesso das usinas dependerá diretamente da agressividade comercial das tradings em contornar as taxas americanas e consolidar rotas nos países asiáticos e europeus.