
A ampliação do acesso a medicamentos usados no tratamento da obesidade pode influenciar mudanças relevantes nos hábitos alimentares e no mercado de alimentos no Brasil. A avaliação é de Sérgio Cardoso, diretor de operações na Itaobi Representações, ao analisar os possíveis efeitos da perda da patente da semaglutida sobre a alimentação da população e, em especial, sobre o consumo de arroz.
Com a chegada de versões mais acessíveis ao mercado, como o produto já anunciado pela EMS com preço inferior ao medicamento original, e a possibilidade de ampliação do acesso pelo Ministério da Saúde para determinados grupos, o uso desses tratamentos pode alcançar um número maior de brasileiros. Hoje, esse tipo de medicamento ainda está restrito a uma parcela menor da população, principalmente pelo custo.
A reação inicial de muitos setores de alimentos é tratar esse movimento como ameaça. Isso ocorre porque usuários desses medicamentos tendem a sentir menos fome e, consequentemente, a consumir menos calorias. No entanto, a análise sugere que a discussão não deve se limitar ao volume de comida ingerida, mas ao tipo de alimento que será escolhido em cada refeição.
Quando as pessoas passam a comer menos, cada refeição ganha mais relevância. Nesse cenário, cresce a tendência de priorizar alimentos associados a qualidade, equilíbrio e valor nutricional. Para a cadeia do arroz, esse movimento pode representar uma oportunidade pouco observada nas últimas décadas.
O consumo per capita de arroz caiu ao longo dos últimos 40 anos, enquanto produtos ultraprocessados, como bolachas, biscoitos, salgadinhos, snacks e refeições prontas, ganharam espaço na dieta dos brasileiros. A busca por emagrecimento, saúde metabólica e qualidade de vida, porém, pode favorecer alimentos simples, conhecidos e presentes em refeições completas.
O arroz reúne características alinhadas a essa possível mudança. É acessível, versátil, de fácil preparo e faz parte da cultura alimentar brasileira há gerações. Assim, a popularização da semaglutida pode desafiar o volume total consumido, mas também abrir espaço para reposicionar o arroz como parte de uma alimentação mais equilibrada.