
Foto: Fernando Frazão - Agência Brasil
A cidade de Santa Marta, na Colômbia, torna-se o centro das atenções globais a partir desta sexta-feira (24). A 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis reúne diplomatas, cientistas e lideranças de cerca de 60 países. O foco é desenhar uma rota de fuga da dependência do petróleo, carvão e gás natural.
Para o agronegócio brasileiro, o encontro possui um peso direto. O setor é um dos maiores consumidores de diesel no país, essencial para a movimentação de máquinas e para o escoamento da safra em uma matriz logística predominantemente rodoviária. A discussão em solo colombiano busca consolidar alternativas que garantam a produção de alimentos com menor pegada de carbono.
O evento é fruto de uma colaboração entre os governos da Colômbia e da Holanda. Embora não possua caráter de negociação formal como as conferências da ONU, o encontro atua como um laboratório de políticas públicas. O objetivo é aprofundar debates de forma horizontal, ouvindo desde povos indígenas até grandes exportadores de commodities.
O cerne da programação é a elaboração do chamado "Mapa do Caminho". Esta estratégia visa orientar governos na substituição gradual das fontes de energia poluentes por renováveis. O agronegócio brasileiro entra neste cenário com o trunfo dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, que já são realidade nas bombas do país.
DESTAQUE: O Mapa do Caminho é uma proposta brasileira lançada em novembro de 2025, durante a COP30 em Belém (PA), e conta com o apoio de 80 nações para guiar a transição global.
O protagonismo do Brasil em Santa Marta é visto como um passo estratégico. Após a ausência de consenso sobre o tema no documento final da última COP, a diplomacia nacional buscou criar este espaço paralelo. A ideia é apresentar soluções viáveis antes da COP31, agendada para Antália, na Turquia, no final deste ano.
A construção dessa estratégia passou por consulta pública internacional encerrada recentemente, em 10 de abril. Agora, os dados coletados servem para embasar o Painel Científico para Transição Energética. Para o produtor rural, essa mudança significa a chegada de tecnologias de propulsão elétrica e hidrogênio verde para tratores e colheitadeiras no futuro próximo.
Países que possuem grande peso no mercado de energia, como Noruega, Canadá, México e Austrália, além da União Europeia, confirmaram presença. Contudo, o bloco de resistência permanece formado por gigantes como Estados Unidos, China e Índia. Estes países, por ora, optam por não participar deste fórum específico de descarbonização acelerada.
No cenário interno brasileiro, a discussão ganha contornos complexos. Enquanto o governo federal lidera o debate em Santa Marta, enfrenta pressões internas sobre a exploração de petróleo na margem equatorial. A possível perfuração na foz do Amazonas é um ponto de atrito com organizações sociais e ambientalistas presentes na conferência.
FRASE DO DIA: "A liderança brasileira pode ajudar a articular esforços formais e informais, fortalecendo a cooperação climática", afirma Ricardo Fujii, especialista do WWF-Brasil.
Para as entidades que acompanham o setor, como o Greenpeace Brasil, o momento é de coerência. Mariana Andrade, coordenadora da organização, defende que explorar combustíveis fósseis na Amazônia vai na contramão do equilíbrio climático mundial. Ela destaca que o bioma é fundamental para o regime de chuvas que sustenta o agro no Centro-Oeste.
A conferência também prevê a criação de uma coalizão para troca de experiências fiscais e regulatórias. Na prática, isso pode gerar novos subsídios para energias limpas no campo e taxações mais pesadas para combustíveis de origem mineral. O produtor que já investe em energia solar e biogás nas propriedades sai na frente neste novo ordenamento.
Os debates em Santa Marta são divididos em três eixos principais, que abordam desde o financiamento da transição até a justiça social para comunidades afetadas. O encerramento da Plenária Geral ocorrerá entre os dias 28 e 29 de abril, com a presença de chefes de Estado para a Cúpula de Líderes.
A transição energética no campo não se limita à substituição do diesel. Envolve também a produção de fertilizantes nitrogenados, que atualmente dependem fortemente do gás natural. A busca por fertilizantes verdes é uma das pautas que o Brasil tenta emplacar no Mapa do Caminho, visando reduzir a dependência externa e os custos de produção.
A entrega final do documento estruturado em Santa Marta está prevista para novembro deste ano. Até lá, o setor produtivo nacional deverá acompanhar de perto as regulamentações que surgirão desta coalizão. A meta é garantir que a transição seja sustentável financeiramente, sem comprometer a rentabilidade das fazendas e a segurança alimentar.
A programação em Santa Marta inclui ainda diálogos setoriais com a indústria de máquinas agrícolas. Fabricantes globais já testam motores movidos a biometano, aproveitando resíduos da produção animal. Esse ciclo de economia circular é um dos modelos que o Brasil apresenta na Colômbia como exemplo de transição energética justa e tecnicamente viável.