O agronegócio brasileiro, motor da economia nacional, enfrenta um desafio estrutural que volta a ganhar contornos críticos: a extrema dependência de fertilizantes estrangeiros. Atualmente, mais de 85% dos insumos consumidos nas lavouras do país são importados, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Com o cenário internacional instável devido a conflitos em regiões fornecedoras, o risco de desabastecimento e a explosão nos custos de produção tornaram-se preocupações centrais para 2026.
A geografia do fornecimento revela a fragilidade da posição brasileira. Em 2025, 16% dos fertilizantes nitrogenados consumidos no país vieram do Oriente Médio. Quando somados a fornecedores como Rússia e Venezuela, essa fatia de dependência de regiões sob tensão geopolítica sobe para 32%. O Brasil consolidou-se como o maior importador mundial do insumo, registrando um crescimento de demanda de 3,8% ao ano na última década — um ritmo superior à média global.
De acordo com Camila Dias de Sá, gerente de Programas do Instituto Equilíbrio, a situação é agravada pela expansão contínua da fronteira agrícola. O processo de conversão de pastagens degradadas em áreas de cultivo, o fortalecimento dos sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a consolidação da segunda safra (safrinha) demandam uma carga nutricional de solo cada vez mais elevada.
ESTRATÉGIA NACIONAL O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022, estabelece a meta ambiciosa de reduzir a dependência externa para 50% até 2050, fomentando a indústria nacional e a inovação tecnológica.
Entretanto, o caminho para a autossuficiência parcial esbarra em gargalos históricos. O alto custo do gás natural — insumo básico para a produção de nitrogenados —, as deficiências logísticas para o transporte de minérios e a falta de uma coordenação intersetorial robusta são os principais obstáculos. O Brasil possui jazidas minerais e uma matriz energética renovável que poderiam posicioná-lo como um fornecedor global, mas a falta de investimentos em infraestrutura de processamento doméstico ainda trava esse potencial.
Para especialistas, a agenda de fertilizantes deve ser tratada como uma questão de segurança nacional. Sem fertilizantes, a produtividade recorde de grãos e fibras é colocada em xeque, o que pode impactar desde o preço dos alimentos na mesa do brasileiro até a balança comercial do país. A solução exige uma visão de longo prazo que integre políticas de incentivo fiscal para novas fábricas e o desenvolvimento de bioinsumos que possam mitigar a necessidade de adubos minerais.