O setor agrícola de Portugal atravessa um momento de extrema incerteza devido ao agravamento do conflito no Oriente Médio. A disrupção provocada pelas hostilidades envolvendo o Irã atingiu em cheio o mercado global de insumos, afetando diretamente os agricultores portugueses em uma fase crítica do calendário produtivo: os meses de março e abril, período em que se concentram as compras de fertilizantes para culturas estratégicas, como o milho.
O epicentro do problema logístico reside no Estreito de Ormuz. O bloqueio parcial desta rota essencial para o comércio de matérias-primas — como enxofre, amônia e fosfatos — provocou uma onda de volatilidade nos preços internacionais. Em Portugal, o impacto foi imediato: os fertilizantes registraram altas entre 20% e 30% de forma generalizada, mas alguns produtos essenciais, como a ureia granulada, saltaram de US$ 446 para US$ 687 por tonelada, um aumento drástico de 54%.
Embora Portugal não importe a maior parte de seus fertilizantes diretamente do Golfo Pérsico — dependendo mais de fornecedores como Argélia, Egito e Rússia —, o país é estruturalmente dependente do mercado externo. Em 2025, as importações de fertilizantes totalizaram cerca de € 170 milhões (aproximadamente US$ 185,3 milhões). Essa exposição torna o custo de produção nacional extremamente sensível a choques geopolíticos e à valorização global da energia.
IMPACTO NO CAMPO Além dos fertilizantes, o custo de defensivos agrícolas como o glifosato e o preço do diesel agrícola também subiram, pressionando a rentabilidade dos produtores em todas as etapas.
Para o Eng. João Cardoso, diretor-executivo da CropLife Portugal, o cenário exige que os agricultores foquem em eficiência operacional máxima. Com o aumento do diesel e dos insumos, a adoção de tecnologias de agricultura de precisão e a otimização das intervenções fitossanitárias tornam-se ferramentas de sobrevivência para evitar o desperdício e manter a produtividade das lavouras diante da pressão de pragas e doenças.
Do ponto de vista macroeconômico, a crise ameaça chegar à mesa dos cidadãos. Segundo o analista Daniel Rocha, a vulnerabilidade de Portugal à energia importada intensifica o risco de inflação nos alimentos básicos. Enquanto as rotas comerciais no Oriente Médio permanecerem instáveis, o custo de produção elevado deverá ser repassado ao longo da cadeia, elevando os preços finais ao consumidor e reforçando a necessidade urgente de a Europa diversificar suas fontes de insumos e investir em tecnologias alternativas para reduzir a dependência externa.