
A ciência agropecuária do Brasil alcançou o topo do reconhecimento mundial. A Dra. Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, tornou-se a primeira mulher brasileira laureada com o World Food Prize, premiação internacionalmente reconhecida como o "Nobel da Agricultura". O prêmio celebra suas mais de quatro décadas de dedicação ao estudo da fixação biológica de nitrogênio e ao desenvolvimento de bioinsumos, tecnologias que estão transformando a forma como o mundo produz alimentos.
Durante entrevista ao Canal Rural, a cientista destacou o impacto monumental de suas pesquisas. O uso de microrganismos benéficos nas lavouras brasileiras tem evitado a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de gases de efeito estufa. Além do ganho ambiental, a adoção dos biológicos gera uma economia estimada em cerca de R$ 140 bilhões por safra para os produtores rurais, reduzindo drasticamente a dependência nacional por adubos nitrogenados importados de países em conflito.
O reconhecimento internacional, comemorado em uma cerimônia de gala nos Estados Unidos, reflete a mudança de paradigma no setor. Quando a Dra. Mariangela iniciou sua carreira, no auge da Revolução Verde, a dependência de insumos químicos era quase absoluta. Hoje, a validação de seu trabalho prova que a microbiologia do solo é a chave para aliar o máximo potencial de rendimento das culturas comerciais à preservação ambiental e à segurança alimentar global.
Após revolucionar o cultivo de leguminosas e gramíneas como soja, milho e trigo, o novo foco da pesquisadora é a pecuária brasileira. O desafio agora é aplicar a expertise dos bioinsumos na recuperação dos cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas no país. A estratégia envolve a utilização de bactérias específicas que, embora não fixem as mesmas quantidades de nitrogênio que na soja, contribuem com até 20% da necessidade da planta, além de produzirem fito-hormônios fundamentais para o desenvolvimento vegetal.
O resultado da aplicação desses biológicos nas pastagens é o crescimento acelerado e profundo do sistema radicular. Com raízes mais robustas, a gramínea aumenta significativamente sua capacidade de absorver água e nutrientes, resistindo melhor a períodos de seca. Nos testes realizados, a produção de biomassa forrageira cresceu mais de 20%, gerando um pasto mais rico em nitrogênio, fósforo e potássio. Em termos práticos, significa mais comida, de melhor qualidade, para o rebanho, o que se traduz em maior ganho de peso e rentabilidade para o pecuarista.
Além do incremento produtivo, o manejo biológico permitiu, em áreas experimentais, a economia de uma segunda aplicação de 40 kg de ureia, provando a viabilidade econômica do sistema. A saúde do solo também é diretamente beneficiada. Um solo "vivo", rico em microrganismos, possui maior capacidade de ciclagem de nutrientes e retenção hídrica, fundamentos essenciais para o que a cientista classifica como a transição para uma verdadeira "agricultura regenerativa".
Apesar de o Brasil já ser o líder mundial no uso de bioinsumos na agricultura, a adoção ainda representa menos de 10% do mercado em relação aos defensivos e fertilizantes químicos. A Dra. Mariangela Hungria alerta que existem soluções nacionais prontas, baseadas na biodiversidade brasileira, capazes de substituir imediatamente até 40% do uso de fertilizantes químicos sintéticos. A pandemia e as recentes crises geopolíticas aceleraram a busca por essas alternativas, gerando um crescimento exponencial no setor biológico desde 2020.
Para que as pesquisas saiam das bancadas dos laboratórios e cheguem rapidamente às propriedades rurais, a pesquisadora ressalta a importância vital das parcerias público-privadas. A Embrapa desenvolve a tecnologia e a ciência de base, mas conta com o setor privado para a produção em escala, o marketing e a distribuição comercial dos produtos. Esse modelo ético e colaborativo é o que garante a inovação contínua e a competitividade do agronegócio brasileiro no exterior.
A mensagem deixada pela laureada é de otimismo e responsabilidade. Investir em soluções biológicas é garantir a produção de alimentos mais saudáveis e sem resíduos químicos para as próximas gerações, sem a necessidade de derrubar novas áreas de floresta. A ciência comprova que o futuro da produção agropecuária é biológico, eficiente e profundamente conectado à preservação da vida no solo, assegurando o Brasil como uma potência agrícola sustentável.