
Em um momento de transição do ciclo pecuário, com a atividade passando gradualmente da fase de baixa para a fase de alta, as decisões tomadas dentro da porteira hoje terão consequências diretas nos próximos um a dois anos. É exatamente nesse intervalo que a diferença entre produtores que operam com base em indicadores e aqueles que agem por impulso ou intuição se torna mais visível — e mais cara.
Dados do benchmarking da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) da Bovinocultura de Corte do Senar/MS, referentes ao ano pecuário 2023/2024 — considerado um dos períodos mais desafiadores do atual ciclo de baixa —, mostram que fazendas com maior eficiência de gestão atingiram margem bruta média de R$ 901,36 por hectare ao ano. As propriedades com menor nível de adoção técnica ficaram em R$ 459,98 por hectare no mesmo período. A diferença é de 96% — quase o dobro de resultado para quem gerencia com planejamento.
O levantamento reúne dados de mais de 580 mil hectares de pastagens e 740 mil cabeças de gado acompanhadas pelos técnicos do Senar/MS, o que confere representatividade estatística às conclusões e transforma o benchmarking em referência concreta para o setor no estado.

Dados do benchmarking da ATeG Bovinocultura de Corte do Senar/MS
O custo de não planejar
Para o coordenador da ATeG Bovinocultura de Corte do Senar/MS, Fabiano Pessatti, a tomada de decisão baseada apenas no cenário do momento é uma das principais armadilhas do produtor rural. "Quando o produtor toma decisões olhando apenas para o 'hoje', sem considerar o ciclo pecuário, ele acaba assumindo riscos elevados e, muitas vezes, comprometendo os resultados futuros da propriedade", afirma.
Os números do benchmarking sustentam o alerta. As propriedades que adotaram postura reativa — sem planejamento estruturado — registraram, em média, redução de 1,59 arroba por hectare (@/ha) no estoque durante o período avaliado. Nos sistemas de recria e engorda, as perdas foram ainda mais expressivas: 7,46 @/ha e 4,71 @/ha, respectivamente.
Na prática, muitos produtores acabaram vendendo animais adquiridos a custos elevados justamente no menor preço médio da arroba dos últimos três anos — em boa parte dos casos, para manter o fluxo de caixa da propriedade positivo no curto prazo, sacrificando a rentabilidade do médio prazo.
"A ausência de planejamento e de análise estruturada do sistema produtivo intensifica esse problema. Quando o produtor não utiliza plenamente as forças da propriedade, deixa de corrigir gargalos, perde oportunidades e se expõe a ameaças tanto nos momentos de alta quanto nos de baixa do ciclo. Esse processo, muitas vezes gradual, leva à descapitalização da atividade, frequentemente atribuída apenas a fatores externos." — Fabiano Pessatti, coordenador da ATeG Bovinocultura de Corte do Senar/MS
A diferença de desempenho entre propriedades eficientes e deficitárias aparece com clareza nos indicadores zootécnicos. As fazendas com margem bruta positiva registraram taxa de desmama média de 67,36%, estação de monta de 7,67 meses e produção de 139,76 quilos de bezerro por matriz exposta. As propriedades com margem bruta negativa ficaram em taxa de desmama de 57,99% e produção de 114,73 quilos por matriz — uma diferença de mais de 25 quilos de bezerro por vaca, o que representa impacto direto na receita da cria.
Entre as propriedades acompanhadas, o levantamento encontrou realidades distintas: fazendas com estação de monta consolidada, de cerca de três meses, e outras que iniciaram a adoção da prática recentemente. A variação demonstra que o processo de profissionalização da pecuária sul-mato-grossense está em diferentes estágios, e que há espaço relevante para ganhos de eficiência em parcela significativa do rebanho estadual.
Compreender a dinâmica do ciclo pecuário é pré-requisito para tomar decisões estratégicas. O ciclo segue a lei da oferta e da demanda, com o preço do bezerro funcionando como principal gatilho. A escassez de bezerros eleva preços e margens da atividade de cria, estimulando a retenção de fêmeas. Esse movimento reduz o volume de animais disponíveis para abate, restringe a oferta e contribui, ao longo do tempo, para a valorização da arroba do boi gordo.
Na etapa seguinte, o aumento da oferta futura de bezerros pressiona seus preços e dá início ao ciclo de baixa — reiniciando todo o processo. Para o invernista de fêmeas, os efeitos costumam se materializar cerca de um ano após as decisões tomadas. Na atividade de cria, esse prazo pode ultrapassar dois anos. Produtores que ignoram essa temporalidade tendem a reagir fora do momento adequado, comprando caro e vendendo barato de forma sistemática.
É nesse contexto que a metodologia da ATeG atua. Os técnicos de campo do Senar/MS realizam diagnósticos completos das propriedades, considerando histórico técnico, produtivo e econômico. A partir do diagnóstico, são definidas metas alinhadas aos objetivos do produtor e elaborado um plano de ação compatível com a realidade do sistema produtivo.
"A partir desse diagnóstico, são definidas metas alinhadas aos objetivos do produtor e construído um plano de ação coerente com a realidade do sistema produtivo. Isso permite que a propriedade se posicione de forma mais estratégica ao longo do ciclo pecuário", destaca Pessatti.
Custos de produção, produtividade, desempenho zootécnico e resultados financeiros passam a orientar as escolhas, reduzindo a exposição a riscos e ampliando a margem da atividade. Produtores interessados em conhecer o serviço podem buscar o Sindicato Rural do seu município.