Soja fecha fevereiro em queda com dólar baixo e oferta recorde
Publicado em 02/03/2026 08h05

Soja fecha fevereiro em queda com dólar baixo e oferta recorde

Soja encerra fevereiro em baixa devido à valorização do real e à projeção de safra recorde, reduzindo a competitividade frente ao grão dos EUA.
Por: Redação

O mercado da soja encerrou o mês de fevereiro de 2026 sob forte pressão. A combinação de um cenário cambial desfavorável às exportações e a confirmação de uma oferta interna volumosa resultou em um recuo nas cotações da oleaginosa. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), os preços médios voltaram a patamares observados em 2024, quando analisados em termos reais, descontada a inflação do período.

O principal fator de desânimo para o produtor foi a queda do dólar frente ao real. Na dinâmica do agronegócio exportador, a desvalorização da moeda americana reduz a paridade de exportação. Na prática, isso significa que o exportador recebe menos reais por cada tonelada vendida em dólar, o que limita o preço que ele pode oferecer no mercado interno sem comprometer suas margens de lucro. Esse movimento retira a vantagem competitiva do Brasil em relação aos Estados Unidos no mercado global.

Além do câmbio, a perspectiva de uma disponibilidade de grãos acima da média pesou nas negociações. Mesmo com o registro de adversidades climáticas em algumas regiões, o mercado já precifica uma safra robusta. A percepção de que haverá soja suficiente para atender tanto a demanda interna quanto os contratos internacionais traz cautela aos compradores, que evitam pagar prêmios elevados no momento.

Clima e Compensação de Safra

Apesar de preocupações pontuais com o excesso de chuva em Mato Grosso e períodos de veranico no Sul, agentes consultados pelo Cepea mantêm uma visão otimista. A avaliação técnica é de que a perda de potencial produtivo em áreas específicas do Rio Grande do Sul e do Sudeste tende a ser compensada por produtividades excepcionais em outras regiões do país.

Essa capacidade de compensação geográfica do Brasil é um dos pilares que sustenta a projeção de oferta elevada. O desempenho das lavouras no Centro-Oeste e no Matopiba tem surpreendido positivamente, equilibrando a balança da produção nacional. Esse cenário reduz o risco de uma escassez ampla no curto prazo e atua como um teto para as cotações nas principais praças de comercialização, como Paranaguá (PR) e Passo Fundo (RS).

"A combinação de câmbio e perspectiva de grande disponibilidade de grão pesou mais do que as preocupações pontuais com o clima no fechamento de fevereiro."

Estratégia do Produtor e Tom de Negociação

Para o sojicultor, o encerramento de fevereiro sinaliza um mercado extremamente sensível. Com as margens de lucro mais apertadas devido ao custo de produção estável e preços de venda em queda, a decisão de quando comercializar o grão tornou-se um exercício de precisão financeira. Muitos produtores têm optado por segurar o grão à espera de um repique no dólar ou de revisões negativas mais drásticas na safra sul-americana.

A pressão sobre os preços pode persistir caso a colheita confirme os números recordes e o real permaneça valorizado. Por outro lado, o mercado aguarda o relatório de intenção de plantio nos Estados Unidos e possíveis ajustes na demanda chinesa, fatores que poderiam mudar o tom das negociações nas próximas semanas de março.

Perspectivas para Março

O cenário indica que março será um mês de "braço de ferro" entre compradores e vendedores. A indústria processadora nacional deve manter uma demanda firme para a produção de farelo e óleo (especialmente para o biodiesel), mas a paridade de exportação continuará ditando o ritmo das grandes tradings. A atenção do setor se volta agora para a logística de escoamento, que entra em seu período mais crítico com o aumento do fluxo nos portos.

A sustentabilidade financeira das propriedades dependerá da agilidade em aproveitar janelas de oportunidade no câmbio. Ferramentas de hedge (proteção de preços) e o acompanhamento diário das variações na Bolsa de Chicago tornam-se indispensáveis para atravessar este período de cotações em baixa.

A colheita nacional de soja ultrapassou os 40% da área total na última semana de fevereiro.