
O agronegócio brasileiro, motor da economia nacional, entrou em estado de alerta máximo nesta segunda-feira (2). A escalada das hostilidades no Oriente Médio, envolvendo ataques diretos entre EUA, Israel e Irã, projeta sombras sobre os custos de produção e a logística de exportação. Embora especialistas não prevejam uma interrupção total nos embarques, o cenário de 2026 torna-se significativamente mais caro para o produtor e o exportador brasileiro.
Os efeitos colaterais imediatos são sentidos em dois indicadores sensíveis: o petróleo e o dólar. Com a possível instabilidade no Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do consumo global de petróleo —, o preço do barril tende a subir, encarecendo o frete internacional e o diesel nas fazendas. Paralelamente, a busca por portos seguros no mercado financeiro fortalece o dólar, o que, se por um lado aumenta a receita em reais, por outro eleva drasticamente o custo dos insumos importados.
O Oriente Médio é um parceiro estratégico fundamental. A região não é apenas um destino prioritário para as carnes de frango e bovina, mas também abriga plantas industriais de gigantes brasileiras como MBRF e JBS. Além disso, o Irã consolidou-se em 2025 como o maior comprador individual do milho brasileiro, absorvendo 9 milhões de toneladas (23% do total exportado).
Um dos pontos de maior vulnerabilidade para a safra brasileira reside nos fertilizantes nitrogenados. O Irã é um player central no mercado global de ureia. Em 2025, o país persa enviou 184,7 mil toneladas do produto ao Brasil, totalizando US$ 66,8 milhões. Uma interrupção no fornecimento iraniano, ou mesmo dificuldades logísticas no carregamento, pode gerar um efeito dominó nos preços globais.
Além da exportação direta, o Irã é o principal fornecedor de gás natural — matéria-prima essencial para a produção de nitrogenados — para países como Catar, Omã e Nigéria. "Caso haja interrupção do fluxo de gás, esses países serão afetados com menor disponibilidade de matéria-prima", alerta Maísa Romanello, analista da Safras&Mercado. Isso significa que o produtor brasileiro pode enfrentar escassez ou preços proibitivos para a adubação da próxima safra.
"O mundo hoje não é igual ao que era na sexta-feira. Todo mundo depende do petróleo e o conflito afeta os custos de ponta a ponta", destaca Luiz Carlos Pacheco, da T&F Consultoria.
No setor de proteínas, o desafio é puramente logístico e de custos. Os Emirados Árabes Unidos foram o maior destino do frango brasileiro em 2025, com 480 mil toneladas. No caso da carne bovina, o Oriente Médio responde por 6,5% das exportações totais do Brasil. A expectativa de associações como ABPA e Abiec é de que o fluxo comercial seja mantido, mas com a necessidade de rotas alternativas que evitem as zonas de conflito direto.
A MBRF, que possui operações físicas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, já acionou planos de contingência para garantir o abastecimento e a segurança de seus colaboradores. Analistas acreditam que, apesar da complexidade e do encarecimento dos seguros de carga, o produto brasileiro continuará chegando aos portos árabes devido à dependência da região pela proteína importada.
| Produto | Exportação p/ Irã/Região (2025) | Relevância no Mercado |
| Milho | 9 milhões de toneladas | Irã é o maior destino (23%) |
| Carne de Frango | 480 mil toneladas (EAU) | Maior importador do Brasil |
| Carne Bovina | 223,9 mil toneladas | 6,5% do total exportado |
| Ureia (Insumo) | 184,7 mil toneladas | Importado do Irã (US$ 66,8 mi) |
A grande questão para o mercado é a duração do conflito. Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, acredita em um impacto temporário. "Provavelmente até o meio do ano, quando o Brasil volta a colher a safrinha e exportar milho, essa questão já vai estar resolvida", prevê. O fato de o pico das exportações de grãos ocorrer a partir de julho oferece uma janela de alívio para que a diplomacia e os mercados se estabilizem.
Contudo, a volatilidade do dólar é uma preocupação imediata para o fechamento de custos da próxima temporada. O setor de fertilizantes, que já operava com margens sensíveis, deve sofrer reajustes nas tabelas de preços ainda nesta semana. O monitoramento semanal da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) será vital para medir se o ritmo de embarques sofrerá alguma retração nos portos brasileiros diante do encarecimento dos fretes.
O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura, monitora a situação para garantir que os corredores de exportação permaneçam abertos. A resiliência do agronegócio será testada mais uma vez pela geopolítica global, exigindo dos gestores rurais uma atenção redobrada no travamento de preços e na proteção de margens financeiras.
A ABPA e a Abiec mantêm monitoramento constante dos pontos críticos na logística influenciada pelo conflito.