A adoção de novas exigências sanitárias pelo mercado europeu reacendeu as discussões sobre os mecanismos de controle e rastreabilidade na pecuária de corte brasileira. As restrições aplicadas a lotes de carne bovina decorrem das regras da União Europeia referentes à proibição do uso de determinados antimicrobianos ao longo da vida dos animais, exigindo do setor produtivo meios eficientes para comprovar a conformidade dos estabelecimentos sem paralisar as exportações.
A avaliação é da médica veterinária Roberta Züge, mestre e doutora em Reprodução Animal pela Universidade de São Paulo (USP) e conselheira do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS). A especialista pontua que o principal entrave enfrentado pela cadeia nacional reside na dificuldade de demonstrar individualmente que os bovinos mantiveram-se isentos das substâncias restritas durante todas as fases do ciclo produtivo, desde a cria até o abate.
Esse cenário ganha contornos complexos devido às características estruturais da pecuária nacional, caracterizada por ciclos longos, movimentação de animais entre diferentes propriedades e heterogeneidade nos níveis de gestão e rastreamento tecnológico dos rebanhos.
Rastreabilidade no campo: A comprovação do não uso de antimicrobianos exige o acompanhamento individualizado dos animais em todas as fases da pecuária.
Para evitar bloqueios genéricos a regiões inteiras ou ao conjunto dos frigoríficos, surge como alternativa o fortalecimento de auditorias conduzidas por entidades independentes de terceira parte. Essa estrutura atuaria mediante credenciamento e supervisão direta dos órgãos públicos de defesa sanitária.
A implementação dessa camada complementar de auditoria não substitui o papel do serviço oficial de inspeção, mantendo o controle estatal como pilar das garantias sanitárias. A medida permite diferenciar os produtores que já atendem integralmente aos requisitos europeus daqueles que ainda necessitam de adequações em seus protocolos de manejo.
O país conta com uma base consolidada de inspeção sanitária, cadastros estaduais de trânsito animal e programas privados de certificação socioambiental que podem ser integrados para respaldar esse modelo de checagem contínua.
Auditoria complementar: Organismos credenciados pelo poder público podem auditar propriedades rurais sem retirar a prerrogativa do serviço oficial de inspeção.
A proposta prevê a aplicação de procedimentos específicos de controle nos pontos de estrangulamento da cadeia, prevenindo a mistura involuntária de lotes elegíveis com animais desprovidos de comprovação documental. A separação física e digital dos bovinos elegíveis resguarda a credibilidade dos embarques destinados ao bloco europeu.
Um sistema contínuo de verificação reduz a dependência de fiscalizações pontuais ou motivadas por crises momentâneas. A auditoria constante oferece aos compradores internacionais um histórico transparente dos manejos aplicados nas fazendas cadastradas.
A conselheira do CCAS destaca que a aplicação de normas inspiradas na Produção Integrada Agropecuária proporciona um arcabouço técnico sólido para a certificação por terceira parte. A documentação permanente das práticas produtivas reduz a frequência necessária de missões internacionais de vistoria e amplia a segurança jurídica das exportações brasileiras.
A consolidação de auditorias privadas credenciadas pelo governo federal constitui o caminho mais célere para respaldar os frigoríficos brasileiros nas negociações sanitárias com a União Europeia.