Publicado em 10/07/2024 16h10

Recebimento de cacau nacional recua 37,4% no primeiro semestre de 2024

No mesmo período, a indústria brasileira processou cerca de 9% menos, na comparação com os seis primeiros meses de 2023.
Por: Renata Duffles

O primeiro semestre de 2024 registrou uma queda de 37,4% no volume recebido de amêndoas nacionais, pela indústria processadora de cacau. Foram 58,3 mil toneladas recebidas no período, em contraste com as 93,3 mil toneladas recebidas nos seis primeiros meses de 2023, de acordo com os dados compilados pelo SindiDados – Campos Consultores, e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). “Desde o início de 2024, os recebimentos de amêndoas estão abaixo do esperado, especialmente se comparados com o ano anterior. A safra temporã, que deveria ter iniciado com um volume mais consistente em abril, atrasou em razão de questões climáticas. Fica a expectativa de que, no próximo semestre, as entradas de cacau melhorem”, explica a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi.

Se compararmos o volume de recebimento do segundo trimestre de 2024 com o volume de recebimento do mesmo período do ano anterior, tivemos um recuo de 39,9%, de 66.038 para 39.663. De acordo com Anna Paula, “Ainda que no segundo semestre deste ano tenhamos recebido mais que o dobro do que foi recebido no primeiro semestre, quando comparamos os volumes com o mesmo período do ano anterior, a queda é considerável, o que tem impactado fortemente a oferta das amêndoas de cacau no mercado nacional”.

Recebimento por estado

A Bahia foi responsável por pouco mais de 59% do volume total de amêndoas de cacau nacionais recebidas pela indústria processadora no primeiro semestre de 2024, totalizando 34,5 mil toneladas. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, quando o volume fornecido pelo estado foi de 51 mil toneladas, houve um recuo de aproximadamente 32,3%. 

O Pará, por sua vez, foi responsável por 36% do volume recebido, totalizando 21 mil toneladas, uma queda de quase 46% em comparação com o mesmo período do ano anterior, quando o recebimento foi de 38,7 mil toneladas. 

Espírito Santo (2 mil toneladas) e Rondônia (639 toneladas) foram responsáveis por 4,7% do volume total recebido no primeiro semestre do ano de 2024, representando uma queda de 19,3%, frente aos valores de 2023.

Segundo Losi “as questões climáticas mais as perdas para a vassoura de bruxa e outras doenças afetaram os quatro principais estados produtores. Ainda que estejam ocorrendo investimentos tanto em novas áreas, como na melhoria da produtividade nas áreas existentes, os resultados ainda não são o suficiente para superar essas perdas”.

Moagem

Já a moagem de cacau no País teve um recuo de 9,5%, frente aos números do mesmo período de 2023. O volume industrializado de amêndoas de cacau foi de 114,3 mil toneladas nesses seis primeiros meses de 2024, frente as 126,4 mil toneladas do ano anterior. Anna Paula afirma que “a queda da moagem no mercado nacional deve-se à escassez de oferta de amêndoa de cacau, o que impacta drasticamente as operações de industrialização”. 

Se compararmos a moagem do segundo trimestre de 2024 com o mesmo período de 2023, também houve uma redução de 12,8%, ou seja, passamos de 62,4 mil toneladas em 2023 para 54,4 mil toneladas. De acordo com a presidente-executiva da AIPC, “a indústria nacional, junto com os diferentes elos da cadeia produtiva de cacau, tem trabalhado fortemente para mudar esse cenário de escassez na oferta de amêndoas de cacau no mercado nacional, e espera-se que, nos próximos anos, esses esforços comecem a apresentar resultados positivos. Temos, coletivamente, participado de projetos e discussões que visam aumentar a produção de cacau pelo Brasil, e entendemos que o País tem um potencial enorme para alcançar a meta estabelecida pelo Plano Inova Cacau 2030, de 400 mil toneladas de cacau, até 2030”.

Importação x Exportação

Tanto a importação de amêndoas de cacau, como a exportação tiveram queda neste primeiro semestre, sendo de 47,7% na importação e 34,9% na exportação. Já a exportação de derivados de cacau ficou praticamente estável, passando de 24,7 mil toneladas, para 22,6 mil toneladas.

Entre janeiro e junho deste ano, o volume importado de amêndoas de cacau foi de 22,5 mil toneladas, ante 43 mil toneladas importadas no mesmo período de 2023. Anna Paula afirma que “estamos passando por um período de escassez global de amêndoas de cacau. A International Cocoa Organization (ICCO) divulgou que o déficit global de amêndoas de cacau deve passar de 400 mil toneladas, impactando todos os mercados, inclusive o Brasil. Diante disso, o comércio internacional de cacau continua com muita incerteza”.

Análise do mercado internacional

Caio Santos, do departamento de mercado da StoneX, afirma que, após quatro meses consecutivos de alta, o mercado de futuros de cacau desacelerou em abril e registrou correções expressivas desde então, especialmente em junho. Em junho, os preços do contrato para setembro de 2024 (CCU24), em Nova York (ICEUS), caíram 18,07%, fechando a USD 7.729/ton, em 28 de junho - da mesma forma, em Londres, também se observou recuo expressivo. A maior queda diária no período ocorreu em 24 de junho, com uma queda de 11,31% para o contrato mais ativo, reforçando o arrefecimento dos preços.

De acordo com o especialista, essa diminuição foi a maior desde 13 de maio, quando houve uma queda diária de 19,3%, a maior em mais de 50 anos para o cacau negociado na ICEUS. No lado dos fundamentos, não há notícias extraordinárias imediatamente relacionadas à essa queda significativa de preços. No entanto, a alta volatilidade tem sido uma característica do mercado de futuros de cacau, impulsionada pela baixa liquidez, devido ao menor número de contratos abertos em meio à grande incerteza e ao aumento das margens para operações dos contratos em bolsa.

Para a safra 2023/24, a possibilidade de um recuo mais expressivo na moagem de cacau, por conta da elevação nos preços, segue como principal ponto baixista - dados sobre a moagem nos principais polos internacionais serão divulgados ainda em julho. Já para a safra 2024/25 (set-out), a combinação entre o recuo na demanda e a recuperação da produção sugerem a virada para um cenário de superávit no balanço entre a oferta e demanda internacional de cacau. Nesse sentido, os desdobramentos climáticos no segundo semestre de 2024 serão determinantes para confirmar a recuperação da oferta, analisa a equipe da StoneX.