Publicado em 10/08/2018 18h06

Os pobres rurais também podem ser eficientes… e quando o forem deixarão de ser pobres

Uma reflexão introdutória: Os pequenos produtores rurais que desejem sobreviver nesta atividade econômica:

  • terão que se tornar mais eficientes, “profissionalizar-se” e organizar-se em grupos de auto-ajuda para reduzir os seus custos de produção e de transação.
  • se não o fizerem – a sua própria ineficiência produtivo-gerencial e especialmente a crescente ação expropriatória dos fabricantes e provedores de insumos e de maquinária, das redes de supermercados, dos intermediários e dos agroindustriais – os transformarão em ex-agricultores.

No Brasil e nos demais países da América Latina, durante mais de cinco décadas, os programas paternalistas de erradicação da pobreza rural nos demonstraram o seguinte:

a) Que a insuficiência de recursos materiais e financeiros dos pequenos agricultores, embora real, está muito longe de ser a principal causa da sua pobreza. Um alto percentual de pobres do campo possui ou pelo menos têm acesso aos recursos mínimos que são necessários para incrementar a geração de riquezas e de rendas familiares: mão de obra, ferramentas, algo de terra e alguns animais de produção e de trabalho, próprios ou de terceiros. Apesar disto, ainda são pobres; e continuam sendo pobres mesmo quando os sucessivos governos lhes proporcionam os recursos materiais e financeiros que supostamente lhes faziam falta para poder desenvolver-se.

b) Que, muito mais determinante que a insuficiência de recursos materiais e financeiros é a baixíssima produtividade da mão-de-obra dos pobres rurais, porque é esta a que empurra para baixo a produtividade da terra e o rendimento dos animais que eles utilizam; em muitos casos é por esta razão que ambos fatores são, aparentemente, tão insuficientes. Esta baixíssima produtividade é provocada fundamentalmente pelas ineficiências que os próprios pobres rurais cometem na execução das distintas etapas do seu pequeno e empobrecido negócio agrícola. E, ao contrário do que costuma afirmar-se, as referidas ineficiências são causadas muito mais pela falta de conhecimentos adequados que de recursos materiais abundantes.

c) Que essas ineficiências são tão primárias que a sua eliminação não requer soluções complexas, e sim de medidas corretivas muito simples e de baixo ou nenhum custo, que poderiam ser adotadas pela grande maioria dos pobres rurais, mesmo que eles não recebam nenhum recurso material ou financeiro adicional aos que já possuem ou utilizam. Entretanto, eles não as adotam porque ninguém lhes ensinou nem demonstrou, diretamente nas suas propriedades e utilizando de maneira correta os recursos nelas disponíveis, as medidas "eficientizadoras" que eles mesmos poderiam adotar para tornar as suas propriedades mais produtivas. Em outras palavras e “sem dourar a pílula", os pobres rurais continuam sendo pobres, fundamentalmente porque não sabem o que e nem como fazer para evitar, corrigir ou eliminar os erros e ineficiências que, inconscientemente, eles mesmos estão cometendo.

Então, se está tão claro e evidente que a principal causa da pobreza rural é o não saber e o não saber fazer e não tanto o não contar com recursos materiais e financeiros para erradicá-la, já não temos argumentos nem motivos para continuar complicando o que pode e deve ser simplificado. Um programa sério de erradicação da pobreza rural (não esses demagógico-populistas que estão proliferando no Brasil e em vários países da América Latina e destruindo a dignidade dos pobres com migalhas paternalismo-eleitorais), deve começar ensinando às famílias rurais medidas "eficientizadoras" para a correta aplicação de tecnologias que sejam compatíveis com os recursos que elas realmente têm ao seu alcance; por mais escassos que aparentemente sejam. Deve fazê-lo, em primeiro lugar, com o objetivo de elevar, de maneira significativa, a baixíssima produtividade da mão-de-obra familiar. E, como conseqüência de tal elevação, incrementar a produtividade e o rendimento da terra e dos animais que eles utilizam com fins produtivos y geradores de renda (reitero, sejam próprios ou de terceiros). Com o objetivo de que esta "eficientização" seja realmente equitativa (na prática e não apenas na prédica), ela deverá ser gradual, começando pela correta adoção daquelas muitas e muito eficazes medidas que, graças à sua simplicidade, baixo custo e menor dependência de insumos externos às propriedades, estejam ao alcance de todos os pobres rurais, como, por exemplo, as descritas a seguir:

1) Os produtores rurais em sua grande maioria, não apenas os pobres, necessitam tornar-se muito mais eficientes na etapa de produção propriamente dita, com o objetivo de incrementar os ainda muito baixos rendimentos por unidade de terra e de animal. Os extensionistas deverão conscientizá-los e convencê-los de que, simplesmente, não poderão sobreviver economicamente como produtores rurais, se as suas vacas continuarem produzindo 4 litros de leite por dia, suas novilhas parindo aos 42 meses e posteriormente tendo intervalos entre parições de 22 meses; e que tampouco poderão sobreviver economicamente se cada hectare das terras que cultivam continuar produzindo 2.090 Kg de trigo, 3.600 Kg de milho e 13.500 Kg de batata inglesa (estes são alguns indicadores zootécnicos e rendimentos agrícolas médios nos países da América Latina). Inexoravelmente terão que incrementar tais rendimentos porque no mundo globalizado, mesmo que não seja do seu agrado, eles estão sendo obrigados a competir com agricultores de outros países, cujos medias nacionais são respectivamente de 20 litros por vaca/dia, primeiro parto aos 25 meses, intervalos entre parições de 13 meses, 8.000 Kg de trigo, 10.000 Kg de milho e 49.000 Kg em batata inglesa, por hectare, etc. Por esta razão, incrementar tais rendimentos é o primeiro requisito para começar a solucionar seus problemas econômicos; entretanto, incrementá-los é uma condição necessária porém insuficiente.

2) Adicionalmente, embora não seja fácil fazê-lo, deverão abandonar o ancestral e destrutivo individualismo que os mantém submetidos a uma crescente "expropriação" das poucas riquezas que eles geram na suas propriedades. "Expropriação" que começa quando eles adquirem em forma individual os insumos (no varejo, do último elo de intermediação e com alto valor agregado) e termina quando comercializam as suas colheitas (nesta etapa no atacado, com o primeiro elo da cadeia, com zero de valor agregado). Ou seja, tanto na aquisição dos insumos como na comercialização das suas colheitas, sem perceber, estão fazendo exatamente o contrário do que deveriam fazer para apropriar-se das suas riquezas. E isto acontece devido à ausência de atitudes e procedimentos de auto-ajuda, cooperação e solidariedade com os seus colegas agricultores. Para evitar estas "expropriações" eles necessitam juntar-se com os seus vizinhos porque isto lhes permitirá reduzir os seus custos de produção e simultaneamente incrementar os preços de venda das suas colheitas; e este é o único caminho realista para melhorar a sua rentabilidade. No caso dos produtores de leite, suínos e frangos/aves nem sequer deveriam continuar adquirindo rações balanceadas com altíssimo valor agregado que são fabricadas pelas grandes corporações transnacionais; e sim fabricá-las eles mesmos com os ingredientes que já colhem ou poderiam colher nas suas propriedades. Esta mudança de procedimento é de fundamental importância para ter rentabilidade porque o item alimentação corresponde a 80% do custo de produção na avicultura e na suinocultura, e a 50% na produção leiteira. Conseqüentemente, a maneira como os agricultores obtenham os alimentos para os seus animais (produzindo-os com baixos custos ou endividando-se para comprá-los por altos preços) é a que, no final das contas, determinará o êxito ou o fracasso econômico nestes três ramos da produção animal.

3) Os produtores rurais deverão unir-se com os seus vizinhos para realizar em conjunto aqueles investimentos que, devido ao seu alto custo e/ou baixa freqüência de utilização, economicamente não se justifica que os pequenos agricultores os realizem em forma individual; como por exemplo a aquisição e uso de tratores, semeadeiras, colheitadeiras, pulverizadores, fumigadores, trituradores de grãos, tanques esfriadores de leite, etc. Deverão fazê-lo em forma grupal para reduzir ou eliminar o superdimensionamento e a ociosidade de tais equipamentos; porque este procedimento individualista têm uma forte incidência no incremento dos custos de produção, no endividamento e na falta de rentabilidade dos produtores rurais. Em muitos casos o fato de realizar, em forma individual, estes investimentos superdimensionados é o principal motivo pelo qual eles não dispõem de recursos financeiros para adquirir aqueles insumos que são muito mais indispensáveis para aumentar a produtividade na agricultura (sementes e mudas melhoradas, fertilizantes, inoculantes, pesticidas) e na pecuária (melhoramento das pastagens, vacinas, vermífugos, carrapaticidas e bernicidas, sais minerais, sêmen).

4) Também deverão abandonar a desaconselhável prática da monocultura, diversificando a produção agrícola e integrando-a com a produção animal também diversificada, de modo que ambas se "alimentem" reciprocamente e se complementem. A diversificação os tornará menos expostos às adversidades climáticas, à incidência de pragas e enfermidades e às incertezas do mercado. Uma propriedade adequadamente diversificada se desempenha como uma agência de empregos que oferece ocupação produtiva para toda a mão-de-obra familiar, como um supermercado que abastece a família com alimentos diversificados, como uma fábrica de forragens, rações e adubos, como uma produtora de excedentes que geram as rendas necessárias para financiar as despesas familiares e a aquisição dos insumos mais indispensáveis. Em resumo, ela funciona como uma "companhia de seguros" que protege os agricultores contra as dependências, vulnerabilidades e incertezas do seu negócio agrícola. E, o que é ainda mais importante, não o faz durante curtos períodos do ano tal como ocorre com algumas mono-culturas, e sim o faz durante todos os 365 dias do ano; e ao fazê-lo, os libera da crônica dependência dos usurários e dos bancos que, em muitos casos, os levam ao endividamento, à insolvência econômica, à perda das suas propriedades e finalmente os transformam de pobres rurais em miseráveis urbanos.

5) Deverão agregar valor aos produtos primários que colhem nas suas propriedades. Com tal fim deverão realizar, pelo menos, aquelas primeiras etapas de processamento que, devido à sua simplicidade e baixo custo, não exigem grandes investimentos nem sofisticações tecnológicas, como por exemplo: limpá-los ou lavá-los, secá-los, classificá-los, fracioná-los e quando seja possível empacotá-los. Nas suas propriedades ou comunidades poderão agregar valor à soja, ao milho ou sorgo, à alfafa, aos grãos de girassol, à batata doce e à mandioca, transformando-os em rações balanceadas. Em vez de vender, para não dizer "presentear", estas matérias primas ao primeiro intermediário que aparece na propriedade, poderão transformá-las em rações e "vendê-las" às suas próprias vacas leiteiras, suínos, galinhas poedeiras e frangos, cabras e ovelhas. Os seus animais ao "comprarem" tais rações, as transformarão em leite, ovos, carnes, etc. E finalmente as devolverão aos agricultores para que as transformem em queijos, manteiga, carnes processadas, defumadas, etc. Idêntico processamento inicial, de baixo custo e fácil adoção, os próprios agricultores poderão realizar com os grãos, frutas, hortaliças, raízes, tubérculos, etc. Ao incorporar-lhes valor y ao comercializá-los com menor intermediação, é evidente que obterão melhores preços na venda dos excedentes que irão ao mercado.

6) Em forma p r o g r e s s i v a deverão substituir o cultivo de espécies consumidas pelos pobres e passar a produzir aquelas que são consumidas pelos ricos. É muito difícil que os pequenos agricultores, sem economia de escala e sem recursos para fazer investimentos, possam ter êxito econômico produzindo para o mercado espécies de baixa densidade econômica, tais como trigo, feijão, arroz, milho, abóbora, mandioca, batata inglesa ou batata doce. Por esta razão, deverão fazer uma gradual reconversão produtiva nas suas propriedades para oferecer ao mercado, o a nichos de mercados, produtos com maior densidade econômica, diferenciados ou mais sofisticados, que são adquiridos pelos consumidores de ingressos mais altos, como por exemplo: frutas (abacaxi, manga, abacate, morango, nêspera, figo, atemoia, fruta do conde, jabuticaba, acerola), hortaliças (cogumelos, aspargos, alcachofras, brócolis, tomates cereja, milho verde, feijão e ervilha verde para consumir como vagens), produtos orgânicos, frangos e ovos caipiras, ovos de codorna, mel de abelhas, mudas de frutíferas e ornamentais, plantas medicinais e condimentares, flores, etc. Em virtude de que os pobres rurais utilizam reduzidas superfícies de terra, com maior razão deverão substituir as suas plantações extensivas por plantações mais intensivas.

Matando a cobra e mostrando o pau: Nos sites http://www.polanlacki.com.br e http://www.polanlacki.com.br/agrobr (no livro dos pobres rurais) estão disponíveis textos gratuitos que propõem:

  • - as medidas, surpreendentemente elementares, que os pobres rurais, depois de devidamente formados, capacitados e organizados por competentes educadores rurais, poderão adotar para erradicar a sua própria pobreza; e
  • as medidas que os próprios docentes das faculdades de ciências agrárias, os professores das escolas fundamentais rurais e os extensionistas poderão adotar para outorgar maior pragmatismo, objetividade e realismo à formação e capacitação dos recursos humanos encarregados de promover o desenvolvimento rural. Ao contrário do que costumam afirmar os sindicalistas, a adoção destas medidas depende muito mais da decisão pessoal de cada educador que de altas decisões políticas dos ministros e secretários estaduais de educação, dos reitores e diretores das universidades y faculdades de ciências agrárias e dos diretores nacionais e estaduais de extensão rural. Críticas a esta proposta e sugestões para aperfeiçoá-la, serão bem-vindas através do e-mail:

- Polan.Lacki@onda.com.br

Autoria: Polan Lacki, polan.lacki@onda.com.br

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